
Era estranho quando pensava em quantos anos da sua vida perdeu sem ter coragem de dizer NÃO.
Aquela festa chata que teve que ir pois não teve coragem de dizer um não a sua amiga. Aquelas reuniões familiares em que ela apenas sorria e concordava com tudo quando na verdade gostaria de agir completamente diferente. Até aquela comida ruim que não teve coragem de dispensar quando sua mãe lhe trouxe com carinho.
Ela não precisava ser grossa, só precisava ser sincera e dizer "Mãezinha, me perdoa, mas NÃO estou com vontade de comer isso." Mas cadê a coragem?
Tantas coisas que ela queria ter vivido mas simplesmente nem tentava por medo do julgamento dos outros.
Tentou entender o porquê de ter agido assim durante tanto tempo. Daí lembrou de quando sua mãe lhe ensinou que sempre deveria perdoar e assim ela vinha fazendo. Talvez por isso preferisse ser maltratada do que maltratar alguém, pois ela sabia os limites do seu perdão, mas não sabia os limites das outras pessoas. Só que isso não estava certo! Ela não precisava maltratar ninguém, mas nem por isso tinha que ser maltratada! E o amor próprio ficava aonde? Muito bem escondido como ela sempre fez questão de deixar? NÃO! Agora ela sabia dizer essa pequena palavra! E sabia o poder de libertação que ela podia lhe proporcionar.

Os corredores estavam desertos. Ela lembrou das diversas histórias mal-assombradas que ouvira e até contava sobre aquele colégio tão antigo... As passagens secretas, que realmente existiam, e a sala onde as freiras colecionavam caixões, que nunca ficou provado, pois nunca ninguém teve coragem de ir constatar. Lembrou das brincadeiras, dos sustos, das repreensões quando tentava entrar em algum lugar que era proibido para os alunos. O que será que tinha lá? Como ela gostaria de saber! Mas a sua única certeza era de que nunca conseguiria entrar por aqueles becos e portas gigantescas. Percorreu o corredor central até o seu final, onde tinha a antiga biblioteca. Ela ainda continuava ali e ainda continuava antiga. Rara as vezes que encontrava um livro do seu agrado, pois todo aquele espaço era cercado por exemplares antigos, alguns que ela seria capaz de apostar como nenhum aluno jamais havia ao menos folheado. Conseguiu ouvir a voz da bibliotecária, sempre com a cara "amarrada", dando sermão em qualquer um que se atrevesse encostar sobre a sua bancada.






